Módulo 1 · Tópico 1.3 · Tempo estimado: 2h30

Nesta turma convivem muitos povos, muitas línguas e muitas formas de dizer o mundo. Comunicar bem, aqui, é comunicar com respeito à diversidade.

Nesta página você vai:

  • reconhecer a diversidade linguística e cultural presente no curso;
  • conhecer os direitos linguísticos dos povos indígenas;
  • usar o AVA de forma multilíngue, valorizando a escrita e a oralidade;
  • cuidar dos conhecimentos que pertencem às comunidades.

1. Um país de muitas línguas

O Censo Demográfico 2022, do IBGE, registrou 1.694.836 pessoas indígenas no Brasil, pertencentes a 391 etnias, e identificou 295 línguas indígenas, faladas por 474.856 pessoas com dois anos ou mais de idade. As línguas com mais falantes são o Tikúna, o Guarani Kaiowá e o Guajajara (IBGE, 2025).

Essa diversidade está presente na nossa turma, que reúne integrantes dos 52 Territórios Etnoeducacionais. Os próprios territórios foram pensados a partir dela: o Decreto nº 6.861/2009 organiza a educação escolar indígena em territórios que reúnem povos com relações históricas e sociais e com afinidades linguísticas e culturais, independentemente das divisas entre estados e municípios (Brasil, 2009).

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) proclamou o período de 2022 a 2032 como a Década Internacional das Línguas Indígenas, para chamar a atenção do mundo para a importância de preservar, revitalizar e promover essas línguas (UNESCO, [2022]).

Vídeo 1 – O que é a Década Internacional das Línguas Indígenas?

Fonte: Década Internacional das Línguas Indígenas Brasil (2021). Duração: 1min49. Abrir no YouTube.

Figura 1 – Representante do povo Fulni-ô, de Pernambuco, fala sobre a cultura do seu povo para estudantes de uma escola pública em Brasília

Homem Fulni-ô com pintura corporal e cocar de penas fala, gesticulando, para um grande grupo de estudantes sentados ao ar livre, à sombra de árvores.

Fonte: Cruz (2011), Agência Brasil, via Wikimedia Commons, licença CC BY 3.0 BR.

Os Fulni-ô, retratados acima, estão entre os poucos povos indígenas do Nordeste que mantêm viva a sua língua, o Yaathe.

2. Línguas indígenas são direito

O uso das línguas indígenas na educação não é um favor: é um direito garantido em lei.

  • A Constituição Federal reconhece aos povos indígenas a sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições (Brasil, 1988, art. 231) e assegura às comunidades indígenas, no ensino fundamental, a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem (art. 210, § 2º).
  • A Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em vigor no Brasil e hoje consolidada no Decreto nº 10.088/2019 (Brasil, 2019), prevê que, sempre que viável, as crianças indígenas aprendam a ler e escrever na sua própria língua, e que sejam adotadas medidas para preservar e promover essas línguas.
  • As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena (Brasil, 2012) definem essa educação como específica, diferenciada, intercultural, bilíngue ou multilíngue e comunitária.

No Módulo 2 você vai estudar esses marcos legais em profundidade. Por enquanto, guarde a ideia central: no nosso curso, a sua língua tem lugar.

3. Um AVA multilíngue: escrita e oralidade

Muitos povos indígenas têm na oralidade a sua principal forma de transmitir conhecimentos. O AVA permite participar de várias formas, e todas são legítimas:

  • Escrever em português, na sua língua ou nas duas. Se escrever na língua do seu povo, acrescente um resumo em português para que colegas de outros povos e a equipe possam acompanhar.
  • Gravar áudio ou vídeo. No editor de texto do fórum e das tarefas, os botões de microfone e de câmera gravam a sua fala direto pelo navegador.
  • Registrar palavras e conceitos no Glossário multilíngue, explicando o que eles significam no seu território.

Figura 2 – Botões de gravação de áudio (microfone) e de vídeo (câmera) no editor de texto

Barra de ferramentas do editor de texto com os botões de gravar áudio, com ícone de microfone, e de gravar vídeo, com ícone de câmera, destacados.

Fonte: captura de tela do AVA Moodle (2026).

Dica

áudios curtos são mais fáceis de enviar com internet lenta e mais fáceis de ouvir. Na configuração padrão do Moodle, cada gravação feita pelo editor dura no máximo 2 minutos; para falar mais, grave outro trecho. Quando possível, escreva também uma frase resumindo o que você disse: isso ajuda quem tem deficiência auditiva ou está sem fone de ouvido.

4. Escrever para ser compreendido

Na comunicação digital não vemos o rosto nem ouvimos o tom de voz de quem fala. Algumas práticas ajudam a evitar mal-entendidos:

  • Use frases curtas e palavras do dia a dia. Prefira "reunião" a "conclave"; "usar" a "utilizar-se de".
  • Explique as siglas na primeira vez que usá-las (veja o quadro abaixo).
  • Dê contexto: diga de que território, escola ou situação você está falando.
  • Cuidado com ironia e humor: em texto, podem ser lidos como ofensa.
  • Emojis têm significados diferentes para pessoas e grupos diferentes. Use com moderação.
  • Dê tempo para a resposta. Cada pessoa participa conforme a sua rotina e a sua conexão.
Quadro 1 – Siglas que você vai encontrar no curso
SiglaSignificado
AVAAmbiente Virtual de Aprendizagem
PNEEIPolítica Nacional de Educação Escolar Indígena
TEETerritório Etnoeducacional
SECADISecretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão, do MEC
MECMinistério da Educação
LGPDLei Geral de Proteção de Dados Pessoais

Fonte: Elaborado pelo autor (2026).

5. Tradutores automáticos: use com cuidado

Ferramentas de tradução automática podem ajudar a entender um texto em outra língua, mas cometem erros, sobretudo com línguas indígenas, que em geral não estão disponíveis nesses serviços ou têm poucos dados. Nunca use uma tradução automática como versão final de um texto na língua de um povo sem a revisão de falantes dessa língua.

6. Conhecimentos que pertencem às comunidades

Nem todo conhecimento pode ser compartilhado com qualquer pessoa. Em muitos povos, há saberes restritos a determinadas pessoas, idades ou momentos, e há cantos, rituais e lugares que não devem ser fotografados ou divulgados.

A legislação brasileira já reconhece esse cuidado em um campo específico: o acesso a conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade depende do consentimento prévio informado das comunidades (Brasil, 2015). O mesmo princípio ético vale para o que publicamos no curso:

  • antes de compartilhar fotos, vídeos, cantos ou relatos de uma comunidade, pergunte se é permitido e a quem cabe autorizar;
  • não publique imagens de crianças ou de rituais sem autorização;
  • cite a origem dos conhecimentos que compartilhar (de que povo, de qual pessoa, com qual permissão);
  • respeite quando alguém disser que um assunto não pode ser tratado em público.

Para refletir

  • Em quais línguas você se comunica no trabalho e na comunidade? Em quais situações usa cada uma?
  • Que palavras da sua língua não têm tradução exata em português?
  • Como a sua comunidade decide o que pode ou não ser compartilhado com pessoas de fora?

Atividade: Glossário multilíngue

Acesse o Glossário multilíngue do percurso e registre pelo menos um termo ligado à educação, ao território ou à gestão, com o nome na sua língua e em português e a explicação do seu significado. Antes de publicar, confira se o termo pode ser compartilhado.

Referências

BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 11 out. 2026.

BRASIL. Decreto nº 6.861, de 27 de maio de 2009. Dispõe sobre a Educação Escolar Indígena, define sua organização em territórios etnoeducacionais, e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2009. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6861.htm. Acesso em: 11 out. 2026.

BRASIL. Lei nº 13.123, de 20 de maio de 2015. Regulamenta o inciso II do § 1º e o § 4º do art. 225 da Constituição Federal, o Artigo 1, a alínea j do Artigo 8, a alínea c do Artigo 10, o Artigo 15 e os §§ 3º e 4º do Artigo 16 da Convenção sobre Diversidade Biológica, promulgada pelo Decreto nº 2.519, de 16 de março de 1998; dispõe sobre o acesso ao patrimônio genético, sobre a proteção e o acesso ao conhecimento tradicional associado e sobre a repartição de benefícios para conservação e uso sustentável da biodiversidade; revoga a Medida Provisória nº 2.186-16, de 23 de agosto de 2001; e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2015. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13123.htm. Acesso em: 11 out. 2026.

BRASIL. Decreto nº 10.088, de 5 de novembro de 2019. Consolida atos normativos editados pelo Poder Executivo Federal que dispõem sobre a promulgação de convenções e recomendações da Organização Internacional do Trabalho - OIT ratificadas pela República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Presidência da República, 2019. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/decreto/d10088.htm. Acesso em: 11 out. 2026.

BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução nº 5, de 22 de junho de 2012. Define Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena na Educação Básica. Brasília, DF: CNE, 2012.

CRUZ, A. Fulni-ô fala da cultura do seu povo. Brasília, DF: Agência Brasil, 2011. 1 fotografia. Licença CC BY 3.0 BR. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Fulni-%C3%B4_fala_da_cultura_do_seu_povo.jpg. Acesso em: 11 out. 2026.

DÉCADA INTERNACIONAL DAS LÍNGUAS INDÍGENAS BRASIL. O que é a Década Internacional das Línguas Indígenas? [S. l.: s. n.], 2021. 1 vídeo (1 min 49 s). Publicado pelo canal Década das Línguas Indígenas - Brasil. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=hSdgso29cyw. Acesso em: 11 out. 2026.

IBGE. Em Campinas, IBGE divulga resultados do Censo 2022 sobre etnias e línguas indígenas. Agência de Notícias IBGE, Rio de Janeiro, 24 out. 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/44862-em-campinas-ibge-divulga-resultados-do-censo-2022-sobre-etnias-e-linguas-indigenas. Acesso em: 11 out. 2026.

UNESCO. International Decade of Indigenous Languages 2022-2032. Paris: UNESCO, [2022]. Disponível em: https://www.unesco.org/en/decades/indigenous-languages. Acesso em: 11 out. 2026.

Imagem do editor: captura de tela do AVA (Moodle 4.5, tema Moove) em ambiente de demonstração.